O portal Psicologia em Debate é elaborado e mantido por Siegfried Jorge Wehr, Doutor em Psicologia, e aborda temas relativos a relações afetivas, carreira, trabalho e stress. Sieg, como gosta de ser chamado, é psicólogo há mais de 20 anos. Leia mais...

 

              
Home Artigos 11. AUTO-ATUALIZAÇÃO E RELAÇÕES INTERPESSOAIS Qua, 14 de Novembro de 2018
11. AUTO-ATUALIZAÇÃO E RELAÇÕES INTERPESSOAIS PDF Imprimir E-mail



Hoje temos uma gama enorme de pessoas interligadas nas chamadas redes sociais. Isto é muito bom e evidencia a necessidade que todos temos de nos relacionar, de amar e sermos amados, de desenvolver amizade. A internet veio para ficar e é uma ferramenta muito útil que facilita novos contatos e a manutenção dos antigos. No mundo em geral serve preferencialmente para contatos profissionais. No Brasil as redes sociais são usadas fortemente nos relacionamentos para além do âmbito profissional, tanto nas relações de amizade como nas  amorosas. Mas, de que forma nos relacionamos? O que é mais importante nos relacionamentos, a quantidade ou a qualidade? 

Quais são os relacionamentos que realmente valem à pena? Quais são os laços mais significativos para nós? Em muitos casos o que mais interessa são os resultados. Se meus objetivos estão motivados pelos quatro primeiros grupos de motivação segundo Maslow (leia no site As nossas motivações do ponto de vista existencial) então estarei à espera de resultados e ganhos relativos ao grupo de necessidades em que me encontro nesse momento da minha vida. 

No entanto, se as minhas questões dos quatro primeiros níveis estão suficientemente resolvidos então poderei, não quer dizer que vou, adentrar no mundo da auto-atualização. Meus relacionamentos vão também estar marcados por uma necessidade de maior profundidade e intensidade. Com certeza encontrarei pessoas com necessidades semelhantes com quem poderei desenvolver uma amizade mais de acordo com esta busca. 

As pessoas atualizantes tendem a desenvolver relações mais intensas e profundas. Tornam-se pessoas que não deixam muita margem para a indiferença. Ou gostamos delas ou as detestamos. Desenvolvem capacidade de identificação com todo ser humano. Isto requer um desenvolvimento afetivo para além do primeiro estágio de desenvolvimento. Até os seis ou sete anos de vida o ser humano é egocêntrico, ele é a referência de tudo. A tal ponto que em alguns momentos acha até que os outros sabem o que ele mesmo está pensando. Nas etapas seguintes passa incluir o outro, se apropria da capacidade de colocar-se no lugar do outro. Sabemos que todo desenvolvimento é uma trajetória possível mas não garantida, cada indivíduo precisa percorrê-la em primeira pessoa. Assim encontramos pelo caminho muitos adultos ainda egocêntricos de um certo modo incapazes de se colocar na pele do outro. Não compreendem como o outro se sente, são incapazes de empatia.

Estamos falando de apenas dois estágios de desenvolvimento afetivo e facilmente encontramos pessoas que não passam muito da primeira etapa. Na etapa seguinte, que é a etapa do outro, as outras pessoas não estão inclusas na sua compreensão, a não ser como extensão e à serviço de seus próprios desejos. Esbarramos com indivíduos que até cumprem bem suas responsabilidades profissionais, seguem o script profissional, mas apresentam um débito de empatia, não conseguem ver o ponto de vista do outro, apenas o seu próprio. Às vezes tem grande capacidade de persuasão e chegam a convencer os que estão a sua volta de que estão certos. Mas são secos afetivamente, tem dificuldade na modulação dos afetos, nada veem além de si mesmos. 

Esta contradição na pessoa auto-realizadora é apenas aparente. Além de ser capaz de cuidar muito bem de si mesmo, tem grande capacidade de empatia e compreensão dos problemas humanos, de sentir o outro na sua condição de outro. Por um lado conhece a si mesmo o suficiente para encontrar espaço e conhecer o outro enquanto outro, enquanto diferente. Ao mesmo tempo busca engajar-se em relacionamentos que agreguem valor. Encontra certa dificuldade em relacionamentos superficiais. Por isso suas escolhas para relacionamentos mais próximos é bastante criteriosa, pois necessita de verdade, profundidade e respeito.

Nestes últimos 25 anos de trabalho como terapeuta e como professor universitário pude observar a dificuldade de clientes e alunos em superar o egocentrismo. A dificuldade se aprofunda na medida em que convivemos num ambiente competitivo, individualista, onde o outro é apenas uma marca,  uma referência a ser superada. Precisamos ser melhores ou pelo menos aparentar, para vender nossos produtos e serviços, melhores que nossos vizinhos, melhores que nossos colegas. O resultado é um isolamento cada vez maior, uma vida encapsulada pelo mercado, com muros cada vez mais altos e com pouco ar para respirar.

Por outro lado, a amizade é um dos aspectos, ao lado da carreira e das relações sexo-afetivas, que precisamos desenvolver durante toda a vida. O livro da sabedoria de Salomão afirma que 'quem encontrou um amigo encontrou um tesouro'. Isso é especialmente verdade em se tratando de amizades onde podemos compartilhar não só os momentos bons de nossas vidas como as nossas próprias vidas. Como diz outro ditado popular: 'amigo é aquele que continua sendo nosso amigo depois de conhecer quem somos'. 

Acontece que o que somos nestes casos fica tão evidente e com uma riqueza cada vez maior que, compartilhar a vida com alguns poucos amigos, amigos de alma, é de fato uma riqueza que dinheiro nenhum poderá comprar e nem pagar. Nada contra o dinheiro até porque são âmbitos diferentes. Aqui se trata do âmbito da alma, da subjetividade, do todo, da totalidade.

Um importante filósofo de meados do século XX, Martin Buber, escreveu um livro bastante interessante sobre os dois modos de abordarmos o mundo, as pessoas, a natureza e até mesmo o nosso Deus. Ele fala de duas palavras-princípio que emitimos a cada momento em que nos dirigimos ao mundo (pessoas) e em que este se dirige a nós. Uma delas é a palavra-princípio Eu - Isso. Nesta abordagem analisamos, contamos, estudamos, experimentamos, comparamos, verificamos, enfim fazemos todas as análises possíveis. É o que mais usamos no nosso dia a dia. Ele fala que o Eu que emite a palavra-princípio também é diferente em sua natureza. Este Eu é também um objeto entre outros objetos.

A segunda palavra-princípio é Eu - Tu. Aqui estou todo envolvido, estou inteiro diante de outra pessoa inteira. Não dá para fazer cálculos de vantagens e desvantagens. Estou na 'presença' de um Tu! Não há julgamento, há apenas vivência, completo envolvimento! Na presença de um Tu só  cabe a minha totalidade. A isto ele chama de 'relação', de 'encontro'. 

O Amor só é possível no Encontro. Só existe encontro entre duas totalidades. Não posso viver um Encontro sendo um Isso! Falar de totalidade é também falar de união de opostos, resolução ou superação de conflitos como mente e corpo, razão e emoção, masculino e feminino, sujeito e objeto. Vivenciar a totalidade é algo que nos revitaliza, e por si só nos enche de sentido, plenifica o viver! Quase todos nós já vivemos esta dimensão em algum momento da nossa vida! Entrar em Relação é viver nossa humanidade mais profunda, mais intensa e tudo o mais permanece à luz da Relação. 

Vivenciar uma ou outra vez, entrar em Relação, não garante consciência e nem mesmo a abertura para que outros Encontros aconteçam. No mais das vezes o Encontro Eu-Tu resvala para um Eu-Isso, pois queremos explicar, analisar, possuir. Para o Encontro Eu-Tu é necessária a abertura para com o outro, a disposição e a presteza de quando o Encontro ocorrer haver disponibilidade para tal. Nesta dimensão vivemos o Amor, algo que acontece entre um Eu e um Tu, algo que não pertence nem ao Eu e nem ao Tu. Nem mesmo é um sentimento, pois estes nós podemos possuir. Somos passagem de algo que nos fundamenta e ao mesmo tempo segue em direção ao Tu, nada perdemos, mas tudo se plenifica. É o Ser que se atua e realiza em cada uma de nossas partes. 

E um Encontro desta natureza é possível via internet? O que você acha? De que forma as pessoas lhe tratam e de que forma você trata as pessoas? Até onde é possível ser verdadeiro no mundo virtual? Até onde temos coragem de sermos verdadeiros no virtual e no real? Eu diria que é isto que possibilita um Encontro; a nossa abertura para com o Tu! O meio pode ser qualquer um. Pois o Encontro não é determinado pelo meio, mas pelas pessoas, pelo Eu e pelo Tu. 

 

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